Fruto da palmeira Euterpe oleracea, o Açaí é uma das plantas mais importantes para a população Amazônica. Nativo da região Norte do Brasil, além da Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Trinidad e Tobago, e Venezuela, ele integra sobretudo a alimentação básica de indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Porém, com a explosão de popularidade mundo afora a partir dos anos 1990, sua produção se tornou desenfreada para suprir o mercado fora da Amazônia, sendo marcada por vários prejuízos socioambientais.

Origem indígena
Pertencente à família Arecaceae, a mesma do Coco e do Dendê, a Euterpe oleracea é uma planta que teria nascido para acabar com a fome. São várias as narrativas indígenas para explicar a sua origem, mas uma delas conta que, em um período de falta de comida para a sua tribo, o cacique Itaki teria decidido sacrificar todos os recém-nascidos da comunidade, para que não houvesse mais gente passando fome. Sua filha, Iaçá, estava grávida e implorou aos céus para que seu povo recebesse alimento.
Porém, ao nascer, a filha de Iaçá foi sacrificada. Em virtude da perda, Iaçá chorou de tristeza até ouvir o pranto de uma criança. Ao notar que o lamento vinha da mata, Iaçá correu e avistou a imagem de sua filha apontando para uma palmeira de caule fino, que estava carregada de frutos. Tomada pela emoção, Iaçá então tenta abraçar a filha, mas a menina desaparece. A mãe, assim, morre aos pés da árvore, onde foi encontrada sorrindo e abraçada à planta. Por isso, “Açaí” seria um anagrama de “Iaçá”, que no idioma Tupi-Guarani significa “fruto que chora” ou “fruto que expele água”.
Alimentando, assim, a população amazônica desde muito antes da invasão dos europeus no Brasil, a Euterpe oleracea é importante por ser muito nutritivo. Segundo dados da ONU, o nível de proteínas da polpa da fruta é semelhante ao do leite de vaca. Além disso, ela possui muitas fibras, boas gorduras e vitaminas C e E, além de manganês, cobre, boro e cromo. Por causa de tudo isso, ele tem uma comprovada ação contra doenças degenerativas, na melhora do funcionamento intestinal, no fortalecimento da imunidade e da circulação sanguínea, e muito mais.

O ônus da fama
Porém, apesar da crescente oferta, a Euterpe oleracea vem se tornando ausente na nutrição da população da Amazônia, levando muitos grupos a um quadro de insegurança alimentar. Tudo começou na década de 1990: com o “boom” do Jiu- Jitsu no Brasil, o Açaí virou sinônimo de saúde por ser um protagonista na dieta de um dos principais nomes do esporte, a família Gracie, que vem do Pará e é conhecida no mundo todo. Aproveitando a febre, várias indústrias começaram uma produção com foco internacional, mas pouco responsável.
Para suprir a grande demanda externa, houve uma grande expansão das áreas de plantação de Açaizeiros, o que levou à derrubada de muitas espécies nativas. Isso teve como resultado a perda de diversidade local, que prejudicou a polinização da Euterpe oleracea por insetos como as abelhas. Assim, houve uma queda na produtividade, uma vez que cada pé passou a produzir em menor quantidade e qualidade. Com isso, os melhores frutos passaram a ser destinados ao mercado internacional, tornando caríssimos os que ficam aqui.
Cenário insustentável
Na entressafra, tudo fica pior. Em fevereiro de 2024, a saca da fruta chegou aos mil reais em Belém. Com isso, o litro do Açaí “fino”, o mais barato e que já custa em média 20 reais, pode chegar a 80. Para se ter uma ideia do problema, cerca de 60% das famílias que recebem até um salário mínimo no Pará consumiam a fruta todos os dias e agora estão sem uma das suas principais fontes de nutrientes. Isso sem contar com os vendedores locais da polpa, que fecharam seus estabelecimentos pela alta dos preços de compra e venda.

Para piorar, a maioria das empresas responsáveis pela produção – que têm 77% das exportações destinadas aos Estados Unidos – usam trabalho ilegal, tanto com a mão de obra infantil quanto escrava. Nesse sentido, são os povos locais, como a etnia Tembé, que têm se empenhado para encontrar soluções para os problemas em torno da fruta. São os grupos indígenas, ribeirinhos e quilombolas que lutam para que o Açaí com farinha de mandioca, o feijão com arroz da Amazônia, continue a nutrir o futuro da região.
Ficha Técnica:
- Principais nomes populares: Açaí
- Reino: Plantae
- Filo: Streptophyta
- Classe: Equisetopsida
- Subclasse: Magnoliidae
- Ordem: Arecales
- Família: Arecaceae
- Gênero: Euterpe
- Espécie: Euterpe oleracea
- Origem: Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Trinidad e Tobago, Venezuela
- Nativa no Brasil: Sim (Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima)
Referências
https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:666941-1
https://www.frontiersin.org/journals/pharmacology/articles/10.3389/fphar.2023.1143923/full
https://repositorio.ufpa.br/jspui/bitstream/2011/9548/1/Dissertacao_AumentoDemandaAcai.pdf
http://www.eng2016.agb.org.br/resources/anais/7/1468291010_ARQUIVO_trabalhoengcompletoLiv.pdf
https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2020/07/livro_do_acai.pdf
https://www.sciencedirect.com/topics/agricultural-and-biological-sciences/euterpe-oleracea
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7356995
https://www.intercept.com.br/2019/12/31/acai-trabalho-infantil-para/
https://ojoioeotrigo.com.br/2023/08/acai-na-rota-das-commodities/
https://ojoioeotrigo.com.br/2021/02/acai-commodity/
https://www.nexojornal.com.br/externo/2023/07/30/como-a-crise-climatica-ameaca-o-cultivo-do-acai
https://super.abril.com.br/especiais/as-raizes-do-acai
https://www.bbc.com/portuguese/geral-60269301
https://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/boom-do-acai-uma-ameaca-para-a-amazonia/
https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/trabalho-infantil-acai-fiscalizacao
https://dol.com.br/noticias/para/848199/preco-do-acai-chega-a-impressionantes-mil-reais-em-belem?d=1





