Emily Dickinson era uma mulher incomum para os Estados Unidos do século 19. Escrevendo sobre temas que iam do feminismo às relações homoafetivas, a poetisa nasceu em uma família muito religiosa, razão pela qual as mulheres do seu núcleo familiar eram criadas para os papéis de mãe e esposa devotas. Porém, Emily não seguia essa tradição: além de criticar as instituições religiosas, ela só convivia com quem achava interessante e não se casou. Curiosamente, ela tinha como a sua “flor preferida da vida” uma espécie também peculiar: a Monotropa uniflora.
Uma planta vampiresca
O encontro entre as duas aconteceu cedo. Desde que tinha 9 anos, Emily já tinha um interesse científico por plantas. Aos 14, essa paixão botânica teve como resultado a criação de um herbário com mais de 400 espécies. Entre elas, estava a Monotropa uniflora, uma planta que se destaca por não produzir clorofila – não, ela não tem nenhuma parte verde! Chamada de Cachimbo Fantasma, por causa do seu formato e da sua cor branca – ainda que possa ser vista raramente em tons de vermelho -, ela é uma espécie que vive de hábitos “vampirescos”.

Na natureza, é comum encontrar árvores que se desenvolvem a partir de uma relação de parceria com os chamados fungos micorrízicos: enquanto eles fornecem nutrientes como o nitrogênio, elas oferecem uma parte dos carboidratos produzidos na fotossíntese. Tudo ficaria em equilíbrio, mas, quando a Monotropa uniflora aparece, é o caos: isso porque ela se comporta como um “vampiro”, envolvendo os filamentos dos fungos e sugando seus nutrientes de forma parasitária, podendo levá-los à morte e prejudicando as árvores.
Mais que amigas: irmãs
Porém, ainda que tenha esse lado mortal, ela também é sinônimo de vida. Encontrada de forma nativa do Norte do Paquistão ao Extremo Oriente Russo, mas também do México ao Canadá, a Monotropa uniflora é um importante alimento para os zangões. Ela também é usada, com finalidades medicinais, por vários grupos indígenas na América do Norte, como o alívio de ataques epilépticos, dores e sintomas associados aos resfriados. Por isso, ela era uma espécie que, para Emily Dickinson, representava toda a complexidade da natureza.
Outra curiosidade entre as duas, inclusive, é o estilo de vida mais reservado de ambas. Emily Dickinson intrigava muita gente pelo fato de que pouco saía de casa, o que a fazia ser vista como “louca” e “solitária”, sendo que, na verdade, ela só queria escrever em paz. Em paralelo, a Monotropa uniflora, por não fazer fotossíntese, não precisa se expor ao sol. Assim, ela prefere ficar em áreas úmidas de sombra – e até de escuridão total -, nas quais aparece apenas em uma semana por ano. Nas demais, ela fica debaixo da terra.
A Monotropa uniflora não vive muito, mas sua influência é eterna, principalmente no ciclo de vida das abelhas. O mesmo se pode dizer de Emily Dickinson: a poetisa morreu com apenas 55 anos, mas a sua escrita a imortalizou. Curiosamente, o seu primeiro livro de poesias só seria publicado postumamente, pois sua obra foi ignorada por vários editores, mas a capa traz justamente a imagem da sua amada Monotropa uniflora, acompanhando-a na eternidade.

Ficha Técnica:
- Principais nomes populares: Cachimbo Fantasma
- Reino: Plantae
- Filo: Streptophyta
- Classe: Equisetopsida
- Subclasse: Magnoliidae
- Ordem: Ericales
- Família: Ericaceae
- Gênero: Monotropa
- Espécie: Monotropa uniflora
- Origem: Canadá, China, Coreia, Estados Unidos, Índia, Japão, Mianmar, Nepal, Paquistão e Rússia
- Nativa no Brasil: Não
Referências
https://www.britannica.com/plant/Indian-pipe
https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:281016-2
https://americanart.si.edu/artwork/indian-pipe-monotropa-uniflora-26082
https://inpn.mnhn.fr/espece/cd_nom/762024?lg=en
https://www.theatlantic.com/magazine/archive/1893/07/ghost-flowers-monotropa-uniflora/634688
https://academic.oup.com/jhered/article-abstract/72/6/458/896872?redirectedFrom=fulltext
https://publicwebuploads.uwec.edu/documents/Sandra-Prickett.pdf
https://www.researchgate.net/figure/Monotropa-uniflora-Ericaceae_fig1_342491399
https://depts.washington.edu/propplnt/Plants/monotropa%20uniflora.htm
https://plants.ces.ncsu.edu/plants/monotropa
https://www.journals.uchicago.edu/doi/pdf/10.1086/325178
https://sweetgum.nybg.org/science/the-hand-lens/explore/narratives-details/?irn=7546
https://cms.botany.org/home/resources/parasitic-plants/monotropa-uniflora.html
https://www.themarginalian.org/2021/07/02/perfect-flowers-emily-dickison/
https://www.ilonasgarden.com/victorian-flowers-of-emily-dickinson
https://www.fs.usda.gov/wildflowers/beauty/mycotrophic/monotropa_uniflora.shtml
https://www.themarginalian.org/2023/08/23/ghost-pipe/
https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/poesia/a-genialidade-de-emily-dickinson
https://www.theatlantic.com/books/archive/2023/09/emily-dickinson-museum-homestead-objects/675373
https://time.com/4717501/emily-dickinson-quiet-passion
https://www.newyorker.com/magazine/2008/08/04/her-own-society








