Uma das grandes esperanças para quem tem o diagnóstico de Mal de Alzheimer, Epilepsia, Fibromialgia, Esclerose, entre outras doenças, é o uso do Canabidiol. Pela sua potente ação reguladora dos sistemas nervoso e imunológico, são inúmeros os pedidos para que medicamentos à base da substância estejam disponíveis no SUS. O principal argumento contrário é o fato de que hoje o Canabidiol é obtid0 a partir da Cannabis sativa – ela mesma, a Maconha. Porém, uma planta nativa do Brasil surgiu no horizonte como alternativa nesse debate: a Periquiteira.
As origens da Periquiteira
A Periquiteira é um arbusto cujo nome científico é Trema micranthum. Ela recebeu o nome popular “Periquiteira” por atrair os periquitos, mas seus frutos – que nascem verdes e se tornam alaranjados – , também maravilham os macacos. Pertencente à família Cannabaceae, a mesma do gênero Cannabis, ela é nativa das Américas Central e do Sul e costuma ser amplamente utilizada no reflorestamento dos biomas brasileiros, principalmente em projetos de restauração da Mata Atlântica. Porém, a sua importância não começou agora.
Milênios antes da violenta invasão dos Europeus nos territórios da América, a Trema micranthum era muito utilizada pelos povos originários como matéria-prima para celulose. No México, desde 300 d.C., a sua casca era utilizada na criação do papel amate, que, anteriormente, era feito com plantas do gênero Ficus, as quais foram substituídas por terem um crescimento lento. Nas sociedades pré-colombianas, o papel amate tinha um valor social muito importante, sendo o escolhido para documentos oficiais, livros, roupas de sacerdotes, oferendas, e muito mais.

Ainda hoje, nos territórios onde é nativa, a Trema micranthum é adotada não apenas na fabricação de papel: por ter uma madeira leve e macia, é utilizada também para obter lenha, carvão e pólvora. Por crescer com facilidade em áreas que sofreram erosão, e também por ser muito resistente às queimadas, a Periquiteira vem sendo de grande utilidade na recuperação de áreas degradadas. Além disso, as suas folhas são usadas para tratar erupções cutâneas por terem um efeito analgésico – e essa é só uma das suas propriedades para a saúde.
A Periquiteira e o Canabidiol
Em 2023, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) divulgaram um estudo importante sobre a Periquiteira. Uma vez que já havia na comunidade científica estudos positivos quanto à obtenção de Canabidiol a partir da Trema orientale – uma parente da Periquiteira, mas que não é nativa do Brasil -, o time foi atrás da Trema micranthum. Isso porque, para viabilizar a produção de uma alternativa legal e com baixo custo, seria preciso que a matéria-prima fosse nativa. E os resultados, além de positivos para o Canabidiol, foram ótimos em outros aspectos.
Apesar de as discussões em torno da legalização e descriminalização da Maconha terem avançado bastante nos últimos anos, principalmente no que diz respeito ao seu cultivo e porte para uso medicinal, há muita resistência. Para além das questões sociais, políticas e econômicas – há um grande viés étnico-racial em toda a polêmica -, o argumento “oficial” para manter a Cannabis na ilegalidade é a presença do Tetrahidrocanabinol (THC), a substância psicoativa que dá o barato. Porém, os estudos desenvolvidos pela URFJ mostraram que a Periquiteira não tem o THC.
Sim, zero: em análises preliminares, não foi encontrado THC nas folhas e nem nas flores ou frutos da Periquiteira, o que a torna ideal para a obtenção de forma legalizada do Canabidiol. Nesse sentido, agora a pesquisa entra em uma próxima e decisiva etapa: descobrir qual é a melhor forma de extrair a substância para que ela possa ser aproveitada na criação de remédios sem perder as suas propriedades. Assim, se tudo der certo, a Periquiteira ajudaria não apenas a saúde de milhares de pessoas no Brasil, mas também de outros países.
Ficha Técnica:
- Principais nomes populares: Periquiteira
- Reino: Plantae
- Filo: Streptophyta
- Classe: Equisetopsida
- Subclasse: Magnoliidae
- Ordem: Rosales
- Família: Cannabaceae
- Gênero: Trema
- Espécie: Trema micranthum
- Origem: Argentina, Belize, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Guiana Francesa, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Suriname, Trinidad e Tobago, e Venezuela.
- Nativa no Brasil: Sim (Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina)
Referências
https://conexao.ufrj.br/2023/06/pesquisadores-da-ufrj-encontram-canabidiol-em-planta-nativa/
https://www.faperj.br/?id=345.7.4
https://www.gbif.org/occurrence/3311583340
https://www.gbif.org/species/2984500
https://www.gbif.org/species/7141666
https://www.scielo.br/j/cflo/a/hzPytGqnrcQGwKB4vHnmgvr
https://www.scielo.br/j/rarv/a/BNYqFjJTqcyx3cpjPfXPQgL
https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/111845/1/11714.pdf
https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/112691/1/15183.pdf
https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-divulga-nota-tecnica-sobre-cannabis-medicinal
https://portal.fiocruz.br/sites/portal.fiocruz.br/files/documentos_2/nt_canabinoides_20230419.pdf
https://portal.fiocruz.br/noticia/seminario-apresenta-os-beneficios-do-uso-medicinal-da-cannabis
https://periodicos.meioambiente.mg.gov.br/MB/issue/download/69/69
https://tede.ufam.edu.br/bitstream/tede/8529/4/Dissertac%cc%a7a%cc%83o_BrisaFlor_PPGCIFA.pdf
https://portal.cfm.org.br/canabidiol/motivos.php
https://www.semillas-de-marihuana.com/blog/en/the-cbd-only-plant-trema-micrantha/
https://explorer.natureserve.org/Taxon/ELEMENT_GLOBAL.2.151985/Trema_micrantha
https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:1018059-2/general-information





