Um amor proibido em alto mar: esse é o plano de fundo para a descoberta de uma das plantas mais amadas em todo o planeta: a Bougainvillea spectabilis. Também chamada de Primavera, a versão mais comum da história da sua descoberta conta que ela foi notada pelo francês Philibert Commerson. Ele integrava a comitiva do almirante Louis-Antoine de Bougainville, quando este atracou seu navio La Boudeuse no Brasil, em 1767. Porém, não foi bem assim: quem a coletou foi uma mulher.

A Bougainvillea spectabilis é uma planta brasileiríssima e seu registro se deu a partir da descoberta científica feita por uma mulher: Jeanne Baret

Philibert era apaixonado por plantas, mas também tinha um outro grande amor: Jeanne Baret. Filha de camponeses e com vasto conhecimento botânico, ela foi governanta de Philibert e os dois se apaixonaram. Em 1765, quando foi convidado a participar da expedição do almirante Bougainville, o naturalista estava com a saúde frágil e então decidiu levar Jeanne na jornada, como sua enfermeira e assistente. Porém, por ser uma mulher, ela foi proibida de ingressar na embarcação.

Diante da proibição, o casal teve uma ideia: Jeanne se disfarçaria com roupas masculinas, iria se misturar em meio à tripulação e seu nome à bordo seria Jean. Quando ficava impossibilitado de liderar as pesquisas,  o que aconteceu muitas vezes ao longo da expedição, Philibert passava o cargo de botânico-chefe para Jeanne. Assim, era ela quem saía atrás de novas espécies e as registrava. De todas, a mais célebre descoberta de Jeanne foi a Bougainvillea spectabilis.

Há versões que afirmam que o achado aconteceu no Rio de Janeiro, enquanto outras alegam que teria sido em Florianópolis. Entretanto, pelo machismo da época, a identificação da Bougainvillea spectabilis não foi creditada para Jeanne, nem mesmo depois de a sua presença na viagem ter vindo à tona, em 1768. Embora ela tenha feito um impressionante trabalho de mais de mil espécies coletadas, tudo o que ela recebeu foi apenas o “perdão” do Rei. Seu nome, assim, ficou esquecido. Tão esquecido quanto os inúmeros abusos que ela sofreu à bordo, inclusive um estupro coletivo.

Jeanne Baret, a grande responsável pela descoberta da Bougainvillea spectabilis

Apesar dessa enorme e violenta injustiça, a descoberta de Jeanne Baret ganhou o mundo. Embora seja mais acostumada ao clima tropical e quente, a Bougainvillea spectabilis foi introduzida nos mais diferentes territórios, como a Grécia, Espanha, Alemanha, China, México, Havaí, Austrália, entre vários outros. Inclusive, essa turnê mundial da planta não foi à toa: por ser bem adaptável e oferecer uma explosão de cores com suas folhas coloridas – as flores, na verdade, são a parte branca – ela virou pop.

Entre botânicos, floricultores e paisagistas de várias regiões ao redor do planeta, todo mundo queria um exemplar para chamar de seu. Um exemplo disso foi que, no final do século 19, na Califórnia, houve até a iniciativa de usá-la para transformar a paisagem do estado norte-americano, que tem extensa área desértica, em uma “visão do paraíso”, com toques tropicais.

Porém, com o passar dos anos, além do seu valor ornamental, outro aspecto da planta ganhou destaque: o seu óleo essencial.

A Bougainvillea é uma planta muito nostálgica por fazer parte das memórias dos quintais de vó

Estudos de diversas instituições, que vão da Florida Gulf Coast University até o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí, indicam que há compostos nas estruturas da planta, como as flores e o caule, que atuam de forma eficaz no tratamento de doenças como o Alzheimer. Na Índia, por exemplo, as folhas da Bougainvillea spectabilis também estão presentes em diferentes fórmulas fitoterápicas para o tratamento de diabetes.

Trepadeira perene e lenhosa que pode chegar aos 10 metros de altura,  a Bougainvillea spectabilis precisa de um clima quente com muita iluminação direta e é ótima para “torrar” no sol. Porém, para compensar, ela precisa de muita umidade: suas folhas em tons de verde ficam meio tristonhas quando estão com sede. Ela também precisa de solo rico em matéria orgânica, agradecendo bastante se for adubada uma vez ao mês. Para espalhá-la por aí, você pode usar sementes, estacas ou pedaços do caule.


  • Principais nomes populares: Primavera, Três Marias
  • Reino: Plantae
  • Filo: Streptophyta
  • Classe: Equisetopsida
  • Subclasse: Magnoliidae
  • Ordem: Caryophyllales
  • Família: Nyctaginaceae
  • Gênero: Bougainvillea
  • Espécie: Bougainvillea spectabilis
  • Origem: Brasil
  • Nativa no Brasil: Sim (Alagoas, Bahia, Ceará, Sergipe, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina)

Referências