Seja você uma pessoa expert em botânica, seja você apenas uma curiosa, de uma coisa você pode ter certeza: periodicamente, muitas das plantas que você conhece por um nome vão passar por uma mudança de nomenclatura. É um pouco como em Game of Thrones: quando você se apega a um personagem, ele morre. No caso das plantas, ninguém morre, mas, quando as pessoas se apegam a um nome, não raramente ele é trocado. É o caso da Semânia.
A história movimentada da Semânia
Originária da América do Sul, dos territórios da Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai e Peru, a Seemannia sylvatica tem uma história fascinante. Podendo florescer o ano todo e adepta dos leitos de rios, entre os quais os do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, no Mato Grosso do Sul, ela é uma planta perene – ou seja, que vive indefinidamente – de modo que muitos exemplares que estão lá no Parque podem ter assistido às reviravoltas no nome dela.

As mudanças de nome
Registrada pela primeira vez em 1818, a Semânia recebeu inicialmente o nome de Gesneria sylvatica. Na época, era comum que as plantas fossem classificadas de acordo com semelhanças estruturais – e, de fato, ela lembra mesmo algumas espécies do gênero Gesneria, como a Gesneria pauciflora e a Gesneria cuneifolia. No entanto, estudos posteriores a levaram a mudar de nome em 1898: ela passou a ser Fritschiantha sylvatica.
Sim, ao longo do tempo, todo mundo concordou que ela seria sylvatica, epíteto que significa “silvestre”. A questão toda estava no seu gênero: o gênero Fritschiantha, que hoje não é mais adotado, surgiu para indicar diferenças que ela e outras plantas teriam em relação às Gesnerias, de modo que ela não poderia estar no mesmo bolo das espécies de seu antigo gênero. Tudo ficou assim até 1975, quando houve outra mudança e ela virou Gloxinia sylvatica.
De todos, Gloxinia sylvatica foi o seu nome científico de maior sucesso – inclusive, ela é conhecida de modo popular mundo afora como “Bolivian Sunset Gloxinia”. Porém, desde 2015, com os avanços tecnológicos que permitiram análises genéticas mais profundas, entendeu-se que ela, na verdade, pertence a um gênero que era conhecido desde 1855: o Seemannia, “primo” do Gesneria – sim, aquele da primeira classificação dela, que a gente falou lá no começo.

A importância do estudo do DNA
“Mas por que não a colocaram logo nesse gênero, se ele já era conhecido?”: é importante lembrar aqui que muitos entendimentos da botânica que hoje são “óbvios” só foram alcançados muito recentemente. Apesar de a tecnologia do microscópio existir desde 1595, a sofisticação do seu alcance, uma das principais ferramentas para análises mais profundas do DNA de uma planta, leva tempo. Por exemplo, a própria fotossíntese só foi totalmente compreendida em 1960.
Em 1976, o gênero Seemannia, que até então tinha seu bonde próprio, passou a ficar sob o guarda-chuva do gênero Gesneria. Porém, a partir de estudos filogenéticos – ou seja, que investigam o processo evolutivo a partir do DNA – foi possível descobrir diferenças nas trajetórias das espécies. Assim ficou claro que os exemplares dos gêneros Seemannia e Gesneria, mesmo sendo da família Gesneriaceae, seguiam caminhos diferentes: eles estavam mais para “primos” do que para “irmãos”.
Com suas flores vermelhas, que são feitas para atrair animais como o Beija-Flor e insetos como as abelhas, a nossa Seemannia sylvatica tem um grande valor ornamental. Para tê-la em casa, é importante saber que, apesar de precisar de claridade, ela não gosta de sol direto. Seu solo deve estar sempre úmido e também rico em matéria orgânica, para reproduzir o ambiente das florestas. Além disso, ela gosta de calor e, em ambientes frios, pode ser que ela perca as suas folhas.
Ficha Técnica:
- Principais nomes populares: Dente de Leão, Dandelion
- Reino: Plantae
- Filo: Streptophyta
- Classe: Equisetopsida
- Subclasse: Magnoliidae
- Ordem: Lamiales
- Família: Gesneriaceae
- Gênero: Seemannia
- Espécie: Seemannia sylvatica
- Origem: Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai, Peru
- Nativa no Brasil: Sim (Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina)
Referências
https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:382733-1#distributions
https://newswire.caes.uga.edu/story/6383/bolivian-sunset.html
https://www.scielo.br/j/bn/a/8nRhVbJk4gRdxKs83WMJzqN
https://ala-bie.sibbr.gov.br/ala-bie/species/333058?lang=pt_BR#overview
https://journals.flvc.org/selbyana/article/view/114842/113195
https://www.floridamuseum.ufl.edu/shops/plant/bolivian-sunset-gloxinia
https://htbg.com/seemannia-sylvatica
https://www.jstor.org/stable/45065125
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7924171
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7489092
https://www.ks.uiuc.edu/History/photosynthesis
https://www.sciencedirect.com/topics/nursing-and-health-professions/plant-dna
https://www.cshl.edu/how-plants-pass-down-genetic-memories/
https://www.nature.com/articles/084391a0
https://www.britannica.com/science/botany
https://www.britannica.com/science/photosynthesis
https://www.flower-db.com/en/flowers/gloxinia-sylvatica
https://repositorio.ufjf.br/jspui/bitstream/ufjf/9775/1/lucianacarvalhopereira.pdf





