Ao estudar a história das plantas, é comum encontrar narrativas que se cruzam com a mitologia grega. Uma delas, por exemplo, é a da Viola tricolor, também conhecida como Amor Perfeito: há um mito que conta que Eros se apaixonou por uma delicada flor branca, a qual foi ganhou manchas de Afrodite, que havia ficado com inveja da beleza da flor. Essa flor teria se tornado a nossa Amor Perfeito, planta que marcou diversas obras culturais – e paixões – ao longo da história.
Uma planta cheia de protagonismo
Provavelmente, você já viu Amores Perfeitos de diversos tons. Porém, pertencente à família Violaceae, a Viola tricolor é o ponto de partida de todos os híbridos que conhecemos da planta. Nativa da Europa e da Ásia, nas quais pode ser encontrada tanto perto do mar quanto em grandes altitudes, o epíteto do seu nome científico – tricolor – faz justamente referência às três cores que a compõem: violeta, branco e amarelo.

As abelhas são os seus principais agentes polinizadores. Inclusive, as linhas escuras de suas pétalas são como uma sinalização de pista de pouso, indicando por onde as abelhas devem seguir para encontrar o néctar e o pólen. Porém, a Viola tricolor também é uma planta bissexual e autocompatível, o que faz com ela consiga se reproduzir sem precisar de ajuda. Suas flores produzem cápsulas que podem conter até 50 sementes.
Reino Unido
De todos os lugares por onde passou, o Reino Unido é especial na história do Amor Perfeito. Shakespeare, por exemplo, era fã da simbologia da planta, que, nos séculos 16 e 17, na Inglaterra, era usada na criação de poções do amor. Por isso, em Sonho de uma noite de verão, o autor a traz na cena do elixir amoroso. Também usada pelos ingleses em menção ao amor passageiro, ela aparece novamente em Hamlet, quando Ofélia sofre por amor.

Curiosamente, em inglês, a planta é conhecida como “Pansy”, que vem do francês “Pensée”, “pensamento”. Assim, era comum que as pessoas enviassem “pensamentos” amorosos em buquês que traziam ramos de Amor Perfeito. Nesse sentido, o autor D.H. Lawrence usou a metáfora para intitular seu livro de poemas de 1929 como Pansies. Ele queria que seus escritos fossem como Amores Perfeitos: ideias efêmeras, mas fascinantes.
Alida da comunidade LGBTQIAPN+
Por causa da delicadeza da flor, “Pansy” também era uma expressão usada para se referir, de forma pejorativa, à comunidade LGBTQIAPN+ nos territórios de língua inglesa. Porém, com o tempo, a própria comunidade se apropriou do termo e passou a usá-lo de forma carinhosa. Ele nomeou, inclusive, o período conhecido como “Pansy Craze” americana, uma breve era de ouro para clubes drags e bares gay friendly, nos Estados Unidos dos anos 1920 e 1930.

A partir da “Pansy Craze”, Hollywood viu uma maior expressão de atores gays e que eram abertamente drags, como Jean Malin. Com o fim da década de 1930, repressões como o Código Hays, que censurava artistas, levou ao fim da era, mas o termo “Pansy”, até hoje, significa resistência: o Pansy Project, por exemplo, é um movimento que planta Amores Perfeitos em locais marcados por episódios de homofobia e transfobia.

Cultivo
Para ter essa planta tão cheia de significados, é importante lembrar que ela deve ser cultivada sob sol pleno, mas em clima até 25 °C. Acima disso, é melhor a meia-sombra. O solo deve ser bem drenado, rico em matéria orgânica, levemente ácido e com regas regulares, pois é uma planta que sente bastante a falta de água. Sua floração ocorre no outono e na primavera, podendo acontecer durante o inverno nas regiões em que o clima é mais ameno.
Falando nas suas flores, elas são comestíveis, mas o consumo deve ser feito em pequenas quantidades, já quepossuem saponinas, substâncias que, apesar de importantes, possuem propriedades diuréticas. As flores ainda contêm compostos com propriedades antiinflamatórias, antioxidantes, bactericidas e calmantes, sendo muito usadas na indústria farmacêutica, especialmente na produção de fitoterápicos.
Ficha Técnica:
- Principais nomes populares: Amor Perfeito
- Reino: Plantae
- Filo: Streptophyta
- Classe: Equisetopsida
- Subclasse: Magnoliidae
- Ordem: Malpighiales
- Família: Violaceae
- Gênero: Viola
- Espécie: Viola tricolor
- Origem: Albânia, Alemanha, Armênia, Azerbaijão, Áustria, Bélgica, Bielorrússia, Bulgária, Cazaquistão, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Geórgia, Grécia, Holanda, Hungria, Islândia, Irã, Irlanda, Itália, Noruega, Polônia, Reino Unido, República Tcheca, Romênia, Rússia, Suécia, Suíça, Tadjiquistão, Turquia e Ucrânia
- Nativa no Brasil: Não
Referências
https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:869428-1
https://www.kew.org/read-and-watch/plants-LGBTQ-symbols
https://plants.ces.ncsu.edu/plants/viola-tricolor
https://rd.uffs.edu.br/bitstream/prefix/3200/1/STANICZUK.pdf
https://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/ppgca/Dissertacao%20Joelma_19_06_2018.pdf
https://anaisonline.uems.br/index.php/enic/article/view/8424/7922
https://www.britannica.com/plant/pansy-plant#ref158757
https://www.britannica.com/plant/Viola-plant-genus
https://www.worldofinteriors.com/story/flower-press-wild-pansy
https://www.chicagomag.com/chicago-magazine/november-2005/the-gay-30s
https://inpn.mnhn.fr/espece/cd_nom/129723
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12738912
https://www.scielo.br/j/babt/a/FtzJwFW5ZJz5fRSQGRthyfP/#
https://daily.jstor.org/four-flowering-plants-decidedly-queered/
https://www.outsmartmagazine.com/2023/06/the-secret-queer-history-of-flowers/
https://www.crocus.co.uk/plants/_/viola-tricolor/classid.2000003656
https://gobotany.nativeplanttrust.org/species/viola/tricolor
https://www.gbif.org/pt/species/5331347/treatments
https://academic-accelerator.com/encyclopedia/viola-tricolor
https://www.extension.iastate.edu/news/2007/apr/070201.htm
https://www.monticello.org/house-gardens/in-bloom-at-monticello/johnny-jump-up
https://convibra.org/congresso/res/uploads/pdf/2017_85_13632.pdf








