Originária da região entre Ásia e Oceania, mais especificamente de onde hoje é a Nova Guiné, a Cana-de-açúcar é uma planta de saber doce, mas com uma história cujo amargor dura até hoje. Tudo começou com as primeiras migrações de grupos humanos: em busca de recursos e de mais expansões territoriais, eles levaram a Cana à Índia, onde o seu cultivo começou há cerca de 20 mil anos. Foi lá, no século 5, que o açúcar foi criado, espalhando-se pela Ásia, até chegar à Europa, no século 10, como um produto caro e destinado à nobreza.

A Cana-de-açúcar é uma planta doce, mas com uma história amarga até hoje

Com um grande horizonte de lucros, Portugal iniciou o cultivo da Cana na Ilha da Madeira, partindo em seguida para o Brasil, onde as condições naturais favoráveis, junto com uma numerosa mão de obra escravizada, geraram não apenas lucros enormes, mas também o domínio sobre a nova colônia. Durante muito tempo, acreditou-se que o ciclo da Cana teria iniciado por aqui em 1532, mas estudos recentes indicam o cultivo desde pelo menos 1526. Embora o ponto de partida tenha sido o Sudeste, Pernambuco e Bahia tornaram-se os maiores produtores.

É nesse momento que surge uma violenta estrutura que caracteriza até hoje o cultivo da Cana-de-açúcar em diversas regiões do país. Ainda que houvesse alguns poucos assalariados, todas as etapas de cultivo, produção de derivados,  e também de manutenção das terras, era feito por homens e mulheres escravizados. A princípio, os explorados eram membros de povos indígenas, mas, posteriormente, grupos trazidos à força de territórios como Nigéria, Senegal, Costa do Marfim, República do Congo e Angola, passariam pelo violento processo.

Ilustração do engenho em Pernambuco de Henry Koster, escravocrata

Porém, a partir dos séculos 17 e 18, a Cana brasileira entra em declínio. Conforme o comércio crescia, maiores eram os gastos, que eram acompanhados por altos e baixos nos preços, endividamentos e crises econômicas e políticas, como as disputas com os holandeses, que passaram a produzir açúcar nas Antilhas. A introdução do açúcar de beterraba na Europa piorou o quadro, de modo que a Cana do Brasil só voltaria a ter protagonismo no governo Vargas, com a criação do Instituto de Açúcar e Álcool, em 1933, para fomentar a indústria.

Em 1975, foi criado o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), visando aproveitar, entre outras oportunidades, a lacuna de abastecimento deixada pela Crise do Petróleo de 1973. Porém com o fim da crise e a estabilização do petróleo no mercado internacional, o Proálcool entrou em declínio em meados dos anos 1980 – e a produção da Cana também, novamente. No entanto, ainda que as indústrias de açúcar e álcool, tenham passado por modernizações ao longo de seus vários altos e baixo, um ponto seguiu constante: o uso de mão de obra ilegal.

Atualmente o Brasil é o maior produtor mundial de Cana-de-açúcar, distribuída em mais de 8 milhões de hectares. Nessas áreas gigantescas, é comum encontrar violações trabalhistas na maioria das etapas de produção. O esquema funciona quase sempre da seguinte forma: uma grande usina contrata uma empresa terceirizada  para obter mão de obra para a sua produção. Essa terceirizada alicia pessoas com a promessa de um emprego, salário, carteira assinada, um alojamento adequado, entre outros benefícios, mas a realidade é bem distante de tudo isso.

Homens negros e em situação de vulnerabilidade são o principal alvo da estrutura escravocrata que ainda que ainda existe no Brasil

Essa terceirização é uma forma de as grandes usinas tentarem se isentar da responsabilidade pelas violações trabalhistas, mas elas continuam sendo cúmplices e devem ser responsabilizadas. Porém, embora o total de multas aplicadas em cada caso possa até ultrapassar, algumas vezes, a faixa de 2 milhões de reais, isso é pouco perto do que ganham as usinas, que faturam mais de 1 bilhão anualmente. Em contrapartida, os trabalhadores violados vivem em locais de falta de saneamento básico e de energia elétrica, chegando a consumir comida estragada.

Assim, todos os dias, na mesa de milhões de brasileiros, o paladar é satisfeito às custas da frequente repetição de um ciclo vergonhoso do nosso país. Isso porque o perfil que costuma ter seus direitos violados na produção do açúcar ainda é muito parecido com o do auge do cultivo no regime escravocrata: homens negros e em situação de vulnerabilidade. De modo geral, estima-se que eles aguentem trabalhar nesse sistema por cerca de 12 anos, o que corresponde, ironicamente, à mesma média de quem vivia escravizado no Brasil até 1850.


  • Principais nomes populares: Cana-de-açúcar, Sugar Cane
  • Reino: Plantae
  • Filo: Streptophyta
  • Classe: Equisetopsida
  • Subclasse: Magnoliidae
  • Ordem: Poales
  • Família: Poaceae
  • Gênero: Saccharum
  • Espécie: Saccharum officinarum
  • Origem: Nova Guiné
  • Nativa no Brasil: Não

Referências