Desde a Grécia Antiga, quando esteve presente em coroas e guirlandas, aos desfiles de alta costura da Maison Balenciaga, o Cravo é uma das plantas mais populares ao redor do mundo e, inegavelmente, também é uma das mais interessantes. Nativo da região dos Bálcãs, mais especificamente da Albânia, da Grécia e dos países que faziam parte da antiga Iugoslávia, o Dianthus caryophyllus passou por altos e baixos, chegou a ser considerado “cafona”, mas também influenciou a história em pinturas, peças de teatro, séries de televisão, revoluções políticas, roupas e muito mais!
A história do Cravo
Idade Antiga
Planta perene que chega a 1 metro de altura e que não tem relação com o Cravo-da-Índia (cujo nome científico é Syzygium aromaticum), o Cravo surgiu no planeta há cerca de 2 milhões de anos, mas é cultivado pelos humanos apenas há 2 mil. Era a flor preferida dos gregos: o nome do gênero, Dianthus, inclusive, significa “divina flor” e foi dado pelo filósofo Teofrasto, discípulo de Aristóteles e estudioso das plantas. Já na Roma Antiga, era chamado de “Flor de Júpiter”, em homenagem ao deus dos deuses da cultura romana.
Idade Média
Com o Cristianismo, o Cravo ganha um sentido materno. De acordo com as narrativas católicas, ao chorar vendo o sofrimento de Jesus, as lágrimas da Virgem Maria teriam se transformado na flor. Porém, ainda durante a Idade Média, a espécie passou a ser um sinônimo de amor conjugal, fertilidade e fidelidade, tanto pela pela sua durabilidade quanto pela sua beleza. Nos séculos 15 e 16, esse aspecto estético, inclusive, fez com que os otomanos usassem o Cravo nos detalhes da decoração de tecidos e também das famosas cerâmicas Iznik.

El Clavel
No entanto, foi na Espanha que ele alcançou status de “ícone pop”. El Clavel, como é conhecido por lá, é a flor oficial do país e está presente em diversos momentos da cultura local. Além da tradição de jogar Cravos vermelhos na arena quando um toureiro derrota o animal, a flor também inspirou, por exemplo o design dos vestidos das dançarinas de flamenco. Inclusive, essa ligação com o país explica a paixão do estilista Cristóbal Balenciaga pelo Cravo: espanhol, ele costumava usar a flor em suas coleções.

Shakespeare
Além de muito citada na literatura por representar as figuras masculinas – em oposição às rosas, que representariam as femininas -, o Cravo também era uma das flores preferidas de Shakespeare. O inglês não só fazia referência aos Cravos na comédia The Winter’s Tale, mas também, durante a apresentação das peças, inclusive oferecia ao público licores feitos a partir da planta. Além da beleza – os Cravos originais iam do fúcsia ao vermelho escarlate -, o principal fator que gerava o fascínio do autor era o aroma da flor, que, a partir de 1700, passou por várias mudanças até chegar na versão mais delicada que conhecemos hoje.
Oscar Wilde
Oscar Wilde era outro apaixonado pelo Dianthus caryophyllus. Como o escritor inglês, que era homossexual, usava um Cravo verde em sua roupa, muitos pensavam, assim, que esse era um “código de homossexualidade”, crime na Inglaterra do século 19. Por isso, quando o romance anônimo The Green Carnation foi publicado, Wilde foi apontado como autor pela semelhança das personagens consigo e com seu amante, o Lord Alfred Douglas. Por causa disso, o escritor foi condenado a dois anos de prisão e trabalho forçado, embora posteriormente tenha sido descoberto se que Wilde não havia escrito a obra. Assim, o Cravo verde virou um ícone LGBTQIAPN+.

A superstição do Cravo
Nos Estados Unidos, onde chegou em 1852, a flor se tornaria símbolo do estado de Ohio, em homenagem ao o 25º Presidente do país, William McKinley. O político ganhou um Cravo vermelho de presente de um adversário quando disputava o Congresso em Ohio, em 1876 – e venceu. Por essa razão, ele criou a superstição de sempre usá-la no terno e, quando já era presidente, havia um vaso cheio delas no Salão Oval. Porém, em 1901, após ficar sem seu Cravo por tê-lo cedido a uma menina em um evento, McKinley levou um tiro e morreu oito dias depois.
Dia das Mães
Ainda nos Estados Unidos, o Cravo está ligado ao surgimento do Dia das Mães. Em 1905, após a morte de sua mãe, a americana Anna Jarvis prometeu criar um feriado para homenagear as mulheres que haviam se dedicado tanto a seus filhos, escolhendo o Cravo branco como símbolo oficial – a flor preferida de sua mãe. A ideia pegou e o feriado ganhou notoriedade ao redor do mundo. Curiosamente, em 1922, estarrecida com os comerciantes que aproveitavam a data para subir o preço dos Cravos, Anna endossou um boicote ao Dia das Mães.
Revoluções
Em 1969, John Lennon e Yoko Ono usaram um Cravo para pedir paz no Vietnã no famoso ensaio em lua de mel. Posteriormente, em 1974, um outro momento político da flor seria a Revolução dos Cravos, em Portugal: vivendo uma ditadura, o país travava diversas guerras pelo controle de suas colônias na África. Em 25 de abril, militares ligados à esquerda se rebelaram, dando fim ao regime fascista de Salazar e acelerando o processo de independência das antigas colônias. Durante o movimento, a população presenteou os militares dissidentes com Cravos, a partir de um gesto iniciado por Celeste Carneiro.

Atualmente
Se no século 19 a popularidade do Cravo atingiu o seu auge, com o tempo ele se sinônimo de “flor barata e cafona”, atingindo uma crise de autoestima que o levou até mesmo a ser visto como flor funerária nos anos 1990. Em Sex and the City, Charlotte até desdenha de um buquê de Cravos dado por um pretendente, cujas flores são defendidas por Carrie, que diz que elas vão voltar a brilhar. E ela acertou: em 2024, várias coleções trouxeram o Cravo nas semanas de moda. Um revival à altura de uma das plantas mais fascinantes que o mundo já viu.
Ficha Técnica:
- Principais nomes populares: Cravo, Carnation
- Reino: Plantae
- Filo: Streptophyta
- Classe: Equisetopsida
- Subclasse: Magnoliidae
- Ordem: Caryophyllales
- Família: Caryophyllaceae
- Gênero: Dianthus
- Espécie: Dianthus caryophyllus
- Origem: Albânia, Eslováquia, Grécia, República Tcheca, Romênia, Rússia
- Nativa no Brasil: Não
Referências
https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:153205-1/general-information
https://www.kew.org/plants/carnation
https://www.science.org/content/article/how-carnations-conquered-europe
https://www.britannica.com/plant/carnation
https://herbaria.plants.ox.ac.uk/bol/plants400/profiles/CD/Dianthus
https://www.si.edu/object/hac_1980.038.003
https://daily.jstor.org/four-flowering-plants-decidedly-queered/
https://www.ft.com/content/658814b4-a517-447b-9618-d2660ef4af17
https://www.bbc.com/news/stories-52589173
https://time.com/3850790/anna-jarvis-mothers-day-origin
https://www.wsj.com/articles/SB10001424052702304410504575560360543473040
https://thursd.com/articles/carnations-their-meaning-history-and-care
https://www.appleyardflowers.com/flowerdiaries/carnation-facts
https://lithub.com/how-oscar-wilde-created-a-queer-mysterious-symbol-in-green-carnations/
https://www.soane.org/features/shakespeares-flowers
https://www.loc.gov/resource/gdcmassbookdig.americancarnatio02lamb/?sp=1&st=slideshow#slide-1
https://hortscans.ces.ncsu.edu/uploads/h/i/history__5356965825457.pdf
https://hortscans.ces.ncsu.edu/uploads/t/h/the_carn_5331a6d089c9c.pdf
https://www.locus.ufv.br/bitstream/123456789/19759/1/texto%20completo.pdf
https://www.scielo.br/j/abmvz/a/Wx3FRWpbNJmJMVShcm7d4cx/?format=pdf
https://ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/ppgcm/20-ANA%20LUIZA%20MARTINS.pdf
https://naturdata.com/especie/Dianthus-caryophyllus/4334/0/
https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/CENARGEN/25267/1/tales2004.pdf








